Transmissões suspensas

Infelizmente, precisarei suspender por um período as postagens do blogue coletivo-cultural-interativo JAMÉ VU.

Motivo: finalização do romance Tempo do Corpo.
Leia um trecho: capítulo inicial.

Em breve, retornarei as publicações de novíssimos e consagrados escritores e poetas brasileiros e do mundo, de textos e imagens, de artistas e ativistas sociais ou artísticos. Quem sabe publicarei novidades e discos da música brasileira também. Mas isso, só quando voltar.


Até mais,
Homero Gomes.

A chegada da caixa de abelhas


Devo agradecer a Jeferson Freitas por ter compartilhado o conhecimento e as impressões desse poema comigo. Um poema tríplice, de algumas leituras possíveis. Pra isso, basta abrir a caixa.





de Sylvia Plath


Eu mesma pedi, esta caixa de madeira
branca e quadrada como um cadeira, pesada demais.
Diria que é o esquife de um anão
ou de um bebê quadrado
não fosse o rumor que vem de dentro.

Está fechada agora, é perigosa.
Devo zelar por ela a noite inteira
e não posso me afastar.
Não há saída, é impossível ver o que há nela.
Só uma pequena tela, sem janelas.

Espio pela fresta.
Tudo escuro, escuro,
pelo enxame zangado de mãos africanas
miúdas, prensadas para exportação,
negro no negro, escalando com ira.

Soltá-las, quem dera?
O zumbido é o que mais apavora,
as sílabas incompreensíveis,
são como um turba romana,
não são nada sozinhas, mas juntas, meu deus!

Ouço ansiosa esse latim furioso.
Não sou um César.
Só encomendei uma caixa de maníacas.
Posso devolvê-las.
Ou deixá-las morrer, sou a dona, não preciso alimentá-las.

Imagino quanta fome sentem.
Imagino se me esquecessem
se eu abrisse a tampa e recuasse e virasse árvore.
Há um laburno, com suas colunas louras,
e anáguas de cereja.

Podiam de repente me ignorar
em meu véu funerário, em meu vestido lunar.
Não sou fonte de mel.
Por que dão voltas em mim?
Amanhã serei o doce Deus, vou soltá-las enfim.

A caixa é apenas temporária.


(Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça)



PLATH, Sylvia. Poemas. São Paulo: Iluminuras, 1994.

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