Adeus, Bartô!
A literatura pode ser um espaço bonito do reencontro, da conversa, do deslanchar para outras confidências.
Bartolomeu Campos de Queirós (*1944 +2012)
O FIM
Escurece no céu e o escuro se reflete nas águas.
Não vejo mais o peixe nem o pássaro.
Volto no dia seguinte aos meus compromissos e penso:
peixe e pássaro vivem pouco
mas vivem muito num só dia só.
Para dar esse adeus, posto um poema d’O Peixe e o Pássaro, o primeiro livro de Bartolomeu Campos de Queirós, publicado em 1971, escritor mineiro que no ano passado publicou Vermelho Amargo, seu único romance para o público adulto.
Mas Bartolomeu não gostava dessas etiquetas, preferia não carimbar seus textos. “Quando se põe o carimbo ‘para crianças’, quando tem destinatário, a gratuidade da literatura se perde”. Ele foi um mestre para mim. Um amigo também. Gente fina, leu as primeiras experiências literárias que eu estava ‘carimbando’ como se fossem para crianças; por isso não cheguei lá, não despertei ainda a criança que está adormecida em mim.
Seu primeiro conselho foi este, enviado por e-mail, em resposta ao envio do texto que posteriormente recebeu menção honrosa no VIII Prêmio Literário Livraria Asabeça, de 2009:
Li Nyathi, que você gentilmente me enviou. É bonito, denso. Gosto do texto quando ele confia na capacidade pensativa do leitor. Texto capaz de abrir-se para um diálogo reflexivo. Acredito que o fenômeno literário acontece quando autor/leitor se juntam e constróem uma terceira obra que jamais será editada. Só o silêncio sabe. É o caso de Nyathi. Continua escrevendo, é o que você bem comprova em seu conto, fazendo acordar para a beleza muitos leitores como eu. Com minha alegria em conhecê-lo, o meu abraço. Sempre, Bartolomeu.
(Agosto de 2008)
Mas de seus conselhos e palavras quero sempre retornar a esta reflexão, que retirei de sua participação no Paiol Literário:
Brinco muito ao afirmar que escrevemos para fazer carinho na gente. Tem horas que a única coisa que posso fazer por mim é escrever. Fazer um pouco de carinho em mim.
Por sua vida e obra, Bartolomeu está deixando uma lacuna difícil, quase impossível, de ser preenchida. Vai fazer falta.
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