Taedium vitae
de Cláudio B. Carlos
não oferecerei resistência. não serei eu a desviar o
curso dos caprichos divinos. não que me falte
vontade. não que não me sobre indignação. apenas
tenho tédio. falta-me ânimo. ficarei aqui sentado
enquanto este bafo quente varre o terreiro, enquanto
os vermes resfolegam na carne de pêssegos maduros
que se desprendem do pé, enquanto moscas
azuladas e gordas cumprem seu destino de depositar
ovos em cães, homens e outros bichos, enquanto o
charque seca no varal, enquanto o charco se forma de
água, terra e bosta de galinhas que pisam e repisam
seu fadário burro… não serei eu a levantar daqui, a
quebrar este encantamento de coisas e animais que
como que hipnotizados vivem e morrem, são e estão,
sem saber como nem porquê, quem apodrece e quem
viceja, quem é que escolhe isto ou aquilo… estou aqui
sentado. não resisto. não por mim, é que isto já foi
decidido. então sigo parado, quieto. só o meu pensar
é que pulsa, mas isto não tem importância. de que
vale o pensamento se o esboço já vem de antes
traçado? só me resta esparramar-me, ocupar um
lugar até que seja, de fato, obra conclusa sob um
revoar de corvos crocitantes: carne podre sobre terra
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