Campanário de ouvido



De Fulano de Tal



I

do dia em que ele foi pela primeira vez ao bar da mãe ela era sócia ainda tem coisa dela lá hoje ela vende coisas pra fora salgadinho doces bolo biscuit até restauração de santo de macumba não deu nem pra ouvir o tiro mas o sangue ainda escorria cheiro forte você já sentiu acho que nunca mais vou usar sinais como os de interrogação de exclamação não adianta eu dar o tom quem lê que dê o corpo tava sem cabeça ele nunca mais esqueceu treze anos ficou impressionado a cabeça estava a um pouco mais de um metro não cortaram não foi a pancada da bala calibre doze

II
do dia anterior o morto tinha saído bêbado e bateu num cara que passeava com o filho vai saber quem tá na rua quem é o que faz melhor nem olhar torto o cara que levou ficou quieto mas abriu o bico pros camarada sabe comé ele tava com a criança podia ter matado o cara ali mesmo bêbado e tudo mas pra quê pra ver pinga voar pelo furo no estômago é melhor esperar e sentir o cheiro do sangue no gramado ele e mais o camarada o tiro ou mais de um pegou no pescoço a cabeça girou no ar e foi rolando deve ter visto algumas formiguinhas antes de apagar

III
do campo em frente que rolava uma pelada nunca se sabe quem é bandido ou parente de matator do bar dava pra ver panoramicamente o juiz marcou a falta deu cartão mas em pelada eu nunca vi deve ter machucado o tadinho o encartonado ficou puto disse pro juiz engolir o cartão e deu uns sopapos pro juiz se mandar nem um minuto depois ele volta com mais uns colega as arma nas mão pirotecnia os bêbado bandido já se levantaram e tranquilizaram as sócias fica na paz que aqui não entra bandido né tinha té lurdinha o juiz foi disparando em direção do cara que tinha dado uns murro sangue no dente torcida organizada ele sai vai consegui ele vai mas já tinha virado penera ía levando tiro e correndo mais pelo impulso dos balaço que da vontade de potência

IV
da veracidade dos fatos e de como eu não gostaria de ter passado por perto e de como gostaria de ter sentido o cheiro da pólvora no sangue e do sangue na pólvora  ou o que vier primeiro

V
de como roubo de carga é lucrativo tanto pro bandido quanto pro informante da rede de mercados supermercados hipermercados não vou falar nomes mas de dentro da própria empresa é que vem a informação preciosa pro freguês do bar que tem mansão carrão mas nunca pagava as birita aquelas que ele roubava prometia entregar de grátis mas é melhor não se fazer de receptador deixa o cara beber de graça que ele até protege o estabelecimento o único ser sem armas é o cachorro que se coça na frente do balcão

 
VI
de como um show pode ser mais musical na plateia que no palco talco desodorante vencido suor brigas passadelas de mão e tiroteio no bar apreensão e desespero pelos sobrinhos que assistiam os grupos devia ser fatalmente pagode o populacho dispersou sobrou só o centro branco do campo de pelada pessoas corriam outras caíam depois do furdunço os dois dessem sorridentes pela rua onde vocês estavam ora a gente não falou que ía pro show mas rolou tiroteio seis são lôco ah era tiroteio pensei que fosse fogo de artifício

VII
de como os limites podem ser tênues demais

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Eu e as galinhas



de Fulano de Tal


1º Round
talvez um flash não um só não seria o suficiente o algo a coisa é estranha desconhecida demais escrevo na folha de trás de meu holerite ris-te e daí à minha frente na minha frente mesmo o ator que interpretou um personagem na novela das sete como sei sei um quadro horrível num fundo lindo terracota o retrato não é esse vô ter que diminuir a letra senão o holerite não será o bastante e é começo de mês uma casa de madeira perto de um shopping palavra idiota sem tinta sem cor rodeada de galinhas galos gatos e uma velha quase vestida de saco-de-lixo outra palavra idiota o que a senhora faz e como consegue viver nesse antro de sucata e lixo esse pra ela é um luxo quem sabe quem sabe é louca ou os loucos assépticos somos nós bactérias parasitando o globo

2º Round
cansaço pés cansados tênis gasto e fedendo sapatos sujos produtores de calos não há ritmo só fadiga todos os dias passo pela casa semelhante ao ateliê do ébrio Bacon onde o varal não há varal não há limpas roupas tecidos se grudam mais facilmente na pele é incrível essas galinhas se empoleiram nas árvores dormem será que chocam sei lá três galos uma galinha malhada empoleirados na árvore de esquina em cada esquina encontros mistérios seres imaginários mágicos será talvez não a velha pomba-gira amarra seus oleosos cabelos coça a púbis já a muito tempo abandonada por cima do vestido de chita estampado palavra estranha com flores amarelas em fundo marrom guerra cenário de abandono versos livres poema incompleto o que fazer se limitar acatar e sentir tesão em ser estandarte estou sofrendo de um branco terrível estandarte fundamento pilar torre-de-marfim de uma geração o caralho foda-se a geração viva os seres zombeteiros


Francis Bacon em seu ateliê


Nockout
não não é escuro é branco imensamente luminescente branco só uma superfície lisa úmida a estafa o tilt generalizado não compreendi essas galinhas mas a estranheza acabou tudo é branco pesadamente branco




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